ROMANOS
X TIAGO,
SALVO
PELA FÉ OU PELAS OBRAS:
Afinal,
Qual o papel das Obras na vida Cristã?
Curso ministrado no Instituto Bíblico Cades Barneia, em
Anastácio-MS em Julho/2014.
Rev.
Marlon A. de Oliveira
Julho,
2014.
INSTITUTO
BÍBLICO CADES BARNEIA
ROMANOS X TIAGO, SALVO PELA FÉ OU
PELAS OBRAS: Afinal, Qual o papel das Obras na vida Cristã?
Cronograma do Curso
- Preliminares
1)
Definição da Doutrina da Justificação
2)
Levantamento do problema: Afinal, quem está certo? Paulo ou Tiago?
3) O
ensino de Paulo sobre o lugar das “obras” na vida cristã: SALVOS PELA FÉ
4) O
ensino de Tiago sobre o lugar das “obras” na vida cristã: SALVOS PELAS OBRAS
5) Mas,
afinal, qual o lugar das “obras” na vida cristã? Somos Salvos pela fé ou pelas
obras? Buscando a harmonia entre a teologia de Paulo e Tiago
-
Considerações Finais
Calendário do Curso
Dia
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Sequência
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Conteúdo
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05/06
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1ª aula
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Preliminares
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2ª aula
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- 1:
Definição da Doutrina da Justificação -1
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3ª aula
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- 1:
Definição da Doutrina da Justificação - 2
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4ª aula
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- 2:
Levantamento do problema
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12/06
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5ª aula
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- 3:
O ensino de Paulo - 1
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6ª aula
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- 3:
O ensino de Paulo - 2
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7ª aula
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- 3:
O ensino de Paulo - 3
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8ª aula
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- 3: O
ensino de Paulo - 4
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19/06
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9ª aula
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- 4:
O ensino de Tiago – 1
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10ª aula
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- 4:
O ensino de Tiago – 2
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11ª aula
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- 4:
O ensino de Tiago – 3
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12ª aula
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- 4:
O ensino de Tiago – 4
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26/06
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13ª aula
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- 5:
Harmonia entre Paulo e Tiago – 1
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14ª aula
|
- 5:
Harmonia entre Paulo e Tiago – 2
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15ª aula
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-
Considerações Finais - 1
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16ª aula
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-
Considerações Finais - 2
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ÍNDICE
PRELIMINARES
- Nesta matéria
trataremos sobre uma das doutrinas principais para a fé cristã: A Doutrina da
Justificação.
-
Pela doutrina da Justificação aprendemos:
·
Quem
é Deus: O Juiz;
·
Quem
é Jesus: A nossa Justiça e o Justificador;
·
Quem
somos nós: Os justificados;
·
O
que é pecado: Aquilo que nos traz condenação.
-
Rm 3:23: “todos pecaram” – todos,
sem distinção!
-
Rm 6:23: “o salário do pecado é a morte”
– todos merecem condenação, todos são passíveis, legalmente, de condenação,
morte, inferno!
-
Todos merecem condenação! Todos são culpados! Todos merecem morrer!
-
Jo 3:16: “Porque Deus amou o mundo de
tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não
pereça mas tenha a vida eterna” – Deus, em sua soberania e profundo amor,
fez algo para salvar os pecadores.
-
Rm 8:30: “E aos que predestinou, a esses
também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses
também glorificou” – Deus, pela graça, justificou
em Cristo quem ele quis salvar!
-
Mas, é aqui que encontramos um problema. Paulo vai dizer em sua carta aos
Romanos, principalmente, que a justificação é pela FÉ, e não pelas obras!
-
Tiago, por sua vez, vai ensinar que a justificação é pelas OBRAS, e não pela fé somente!
-
O nosso propósito é tratar sobre esta disputa
entre os dois apóstolos, e aplicar corretamente a Doutrina da Justificação para
os nossos corações.
-
Assim, entenderemos a questão e o lugar certo das OBRAS e da FÉ na vida cristã.
Que Deus nos ajude! Amém!
1) DEFINIÇÃO DA DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO
-
“A justificação é um ato judicial de Deus, no qual Ele declara, com base na
justiça de Jesus Cristo, que todas as reivindicações da lei são satisfeitas com
vistas ao pecador”. (BERKHOF, pág. 517)
-
A doutrina da justificação ensina que Deus por causa dos méritos de Cristo,
declara o pecador justo e não passível de condenação por causa do seu pecado.
- Base bíblica: Dn
12:3; Dt 25:1; Pv 17:15; Lc 18:14; At 13:39; Rm 8:33,34; (Gn 15:6 / Rm 4:3,33;
Gl 3:6; Tg 2:23); Sl 103:8-12; Mq 7:18-19; Is 53:6,11; Rm 5:1-10; At 26:18; Rm
1:16-18.
-
As Características da JUSTIFICAÇÃO:
a)
A justificação remove a culpa do pecado e restaura o picador aos direitos como
filho de Deus, incluindo a herança eternal;
b)
A justificação acontece no Tribunal de Deus, fora do pecador (extra nos), e não muda a sua vida interior, mas,
afeta toda a sua vida;
c)
A justificação acontece uma vez por todas. Não se repete, e não é um processo,
é imediatamente completa e para sempre;
d)
A causa meritória da justificação está sempre nos méritos de Cristo;
e)
A economia da Trindade quanto aos atos da justificação:
·
Deus,
o Pai – declara justo o pecador;
·
Deus,
o Filho – justifica o pecador;
·
Deus,
o Espírito Santo – santifica o pecador.
2) LEVANTAMENTO DO PROBLEMA: QUEM ESTÁ CERTO? PAULO OU TIAGO?
-
Antes de abordar o “problema”, propriamente dito, é absolutamente necessário
que se afirme algumas questões sobre a Escritura Sagrada:
Sobre as Sagradas Escrituras
A)
A Bíblia é a Palavra de Deus!
B)
TODA a Bíblia é:
·
Verdadeira;
·
Inerrante;
·
Infalível;
·
Inspirada;
·
Santa;
·
Poderosa.
C)
Afirmar que a Bíblia contém ERROS é dizer que DEUS ERRA! O que seria obviamente
um absurdo, uma heresia!
D)
A Bíblia é a regra de fé e prática para todos os homens em todas os momentos!
E)
Base Bíblica: Sl 19; 119:105-112; 2Tm 3:10-17; Ap 22:18-20; Mt 24:35; Jo 14:6.
Sobre a “disputa” entre Paulo e Tiago
-
O que Paulo diz sobre a justificação:
- Rm 3:21-28;
- Rm 3:28: “o homem é justificado pela fé, independentemente das obras
da lei”;
- Gl 2:16: “o homem não é justificado por obras da lei, e sim
mediante a fé em Cristo Jesus”;
-
O que Tiago diz sobre a justificação:
- Tg 2:21: “Não foi por obras que o pai Abraão foi justificado?”
- Tg 2:24: “Verificais que uma pessoa é justificada por obras, e não
por fé somente”.
- Como podemos ver, aparentemente parece que Paulo e
Tiago estão em desacordo com relação à doutrina da justificação. Enquanto este
diz que a justificação acontece mediante as OBRAS, aquele diz que é mediante a
FÉ.
- A primeira coisa a se dizer, é que nenhum deles,
nem Paulo, nem Tiago, estão errados; pois, a Bíblia não erra, é perfeita e
infalível!
- Precisamos analisar melhor o que ambos estão
afirmando e ensinando aos seus leitores originais, para compreender mais a
fundo o que seus ensinos implicam.
- Na verdade, precisamos buscar, à luz de toda a
Escritura Sagrada, uma HARMONIA entre os dois gigantes da era apostólica.
- Este é o nosso desafio! Vejamos com mais cuidado
os ensinos de Paulo e Tiago sobre esta maravilhosa doutrina!
3) O ENSINO DE PAULO SOBRE O LUGAR DAS “OBRAS” NA VIDA
CRISTÃ: SALVOS PELA FÉ
-
Primeiramente, temos que ter em mente, o que e a quem Paulo estava combatendo
ao defender a justificação exclusivamente pela fé!
-
“O problema que Paulo enfrentava era o da oposição de pessoas que confiavam na
sua guarda da lei para a salvação (como ele mesmo havia feito durante seu
período farisaico); assim, ele ensinava que a pessoa é justificada pela fé à
parte das obras da lei – isto é, obras feitas como meios de comprar a salvação.”
(HOEKEMA, pág. 167)
-
O texto principal de Paulo que estudaremos para analisar melhor a sua teologia
é: Rm 3:21-31
Verso 21: “Mas
agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos
profetas;”
-
A Justificação não vem de ninguém a não ser de Deus! É o Senhor Deus quem veio
para resgatar o seu povo dos seus pecados.
-
Deus mesmo providenciou o sacrifício propiciatório. Por trás da obra de Cristo
está o amor de Deus. [1Jo 4:10]” (HOEKEMA, pág. 165)
-
“Uma verdade fundamental do evangelho da salvação deve-se, do início ao fim, a
Deus o Pai”. (STOTT, pág. 126)
-
Deus faz isso sem ser injusto ou se esquecer das exigências da lei. O brilho do
evangelho de Deus está exatamente nisto!
-
Esta matéria em sua exatidão e exaustão é um mistério para nós, não somos
capazes de compreende-la plenamente.
-
“Mas agora” = neste tempo atual,
neste momento estratégico na história da redenção; na “plenitude dos tempos” (Gl 4:4);
-
“sem lei” = Paulo ensina que esta
justiça entrou em vigor à parte da lei. Isto significa que a justiça de Deus
não era, e nem pode ser, obtida pela obediência humana à lei de Deus, pelos
méritos humanos, através de coisas boas que o homem pode fazer. Deus realiza a
sua justiça sem levar em conta as obras da lei.
-
“testemunhada pela lei e pelos profetas”:
A doutrina da justificação tem suas raízes no AT. A justificação pela fé deu-se
início nos planos eternos, antes da fundação do mundo; e realizada,
historicamente, desde a criação do homem.
Verso 22: “justiça
de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem;
porque não há distinção,”
-
Paulo ensina que o evangelho é poder de Deus para a salvação se revelando
através da fé (Rm 1:16,17). Agora, Paulo revela o objeto dessa fé: Jesus
Cristo.
-
“porque não há distinção” = Paulo
exclui o mérito para obter alguma salvação pelo esforço humano dizendo que
todos pecaram. Somos todos iguais também em relação ao pecado. Somos todos
culpados diante de Deus pelos nossos pecados. Todos, sem exceção ou distinção.
-
Paulo enfaticamente ensina que a justiça é obtida exclusivamente pela fé no
Messias Salvador.
-
Essa justiça não pode ser a do homem, isso seria impossível! Portanto, essa
justiça tem que ser apenas a de Deus, aquela que ele mesmo provê, declarativa.
-
“mediante a fé” (apropriada pela
fé): “Essa é uma justiça à parte da guarda da lei, que é dom de Deus e recebida
pela fé.” (HOEKEMA, pág. 163)
Verso 23: “pois
todos pecaram e carecem da glória de Deus,”
-
“todos pecaram” = todos igualmente;
ninguém deixa de ser pecador diante de Deus!
-
“carecem” = carecem em todos os
momentos. Todos, neste momento, estão carecendo de Deus.
-
“Ainda que as pessoas sejam diferentes de muitas maneiras, elas são iguais no
aspecto em que são pecadoras, desesperadamente necessitadas de justificação.”
(HOEKEMA, pág. 164)
-
“carecem da glória de Deus” = Todos
por causa do pecado de Adão são considerados pecadores e separados da graça de
Deus. Por isso, todos necessitam novamente desta aprovação de Deus.
-
“glória de Deus” = significa “a
glória comunicada por Deus”. Podemos entender o termo “glória de Deus” como
aprovação, ratificação, louvor. Em outras palavras, podemos entender o v. 23 da
seguinte maneira: “Todos tem pecado, e como resultado estão agora num estado em
que se acham destituídos do (ou são carentes do) que possuíam antes da queda, a
saber, a inestimável bênção de ter a aprovação de Deus repousando sobre eles.”
Versos 24-25a: “sendo
justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo
Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé,
-
Vamos analisar este verso em partes:
a)
“sendo justificados”:
-
Paulo anuncia a sua doutrina da justificação pela fé. Assim, o apóstolo ensina
que a justiça que vem de Deus é uma bênção outorgada, destinada, aplicada aos que
exercem fé, e a ninguém mais!
-
A base para a justificação é a obra expiatória de Jesus Cristo.
-
Ninguém, exceto somente aqueles que têm um fé genuína em Cristo, recebe a
bênção maravilhosa da justificação.
-
Para Paulo, justificação significa “aquele gracioso ato de Deus por meio do
qual, sobre a base unicamente da obra de mediação efetuada por Cristo, ele
declara justo o pecador, e este aceita o benefício com um coração crente.”
(HENDRIKSEN, pág. 173)
-
Base bíblica: Rm 3:24-30; 4:3,5; 5:1,9; 8:30; Gl 2:15,16; 3:8,11,24; 5:4; Tt
3:7.
-
“Não há conflito em nossa justificação entre a justiça e a graça de Deus, uma
vez que ambas se encontram na cruz de Cristo.” (HOEKEMA, pág. 165).
-
Assim, para Paulo justificação é o contrário de condenação.
-
Base bíblica: Rm 8:1,33,34.
-
Justificação implica imputação (atribuir algo a outra pessoa). Isto é,
justificação significa que a culpa do pecador é imputada (atribuída) a Cristo;
e a justiça de Cristo é imputada (atribuída) ao pecador.
-
Justificação está ligado à imputação, realizado pelo Pai, uma vez por todas.
-
Santificação está ligado à transformação, realizado pelo Espírito Santo, num
processo ao longo de toda a vida.
-
Justificação e santificação são coisas distintas, mas unidas numa ação conjunta
de Deus. Uma não existe sem a outra.
b)
“gratuitamente”:
-
Significa que a justificação acontece sem a necessidade de pagamento por parte
daquele que o recebe; sem qualquer mérito humano.
-
Base bíblica: 1Tm 1:9; Tt 3:4.
-
O mérito humano se faz impossível para se obter a salvação da parte de Deus. O
homem não pode ganhar a bênção da justificação.
c)
“por sua graça”:
-
Graça é a expressão do amor de Deus ao homem pecador e culpado pelo seu pecado.
Deus ama o pecador e deseja salvá-lo. Isto é graça!
-
Deus não exige nenhuma obra meritória do pecador para a sua salvação. Isto
também é graça!
-
A graça de Deus é a base sustentadora da justificação! Crer na justificação
pelas obras é crer que estas obras são a base do mérito humano, o que é
absurdo!
-
“Graça é isso aí: Deus amando, Deus se humilhando em favor de nós, Deus vindo
nos resgatar, Deus se entregando generosamente em Jesus Cristo e por intermédio
dele.” (STOTT, pág. 127)
d)
“mediante a redenção que há em Cristo
Jesus”:
-
Redenção significa livramento, por meio do pagamento de um resgate, da culpa,
do castigo e do poder do pecado.
-
Justificação = sentido legal; redenção = sentido comercial (comprados).
-
Redenção consumada em conexão com Cristo Jesus. Em Cristo e por Cristo.
-
Cristo é o preço do resgate do pecador. A razão da salvação ser de graça é a
cruz.
-
A mensagem de Paulo sobre a justificação pela fé tem como centro a morte e a
ressurreição de Jesus.
-
A justificação, para Paulo, é alicerçada na morte e sacrifício de Cristo Jesus.
-
Cristo nos remiu, fez a propiciação pelos nossos pecados e expiou (anulou,
cancelou) a culpa do pecado.
e)
“a quem Deus propôs”:
-
Paulo retrocede ao conselho divino, quando, pelo decreto eterno de Deus, Jesus
Cristo foi designado para ser graciosamente aquele por meio de quem o plano da
salvação seria realizado e consumado.
f) “no seu sangue, como propiciação”:
-
Sangue representa vida.
-
Base bíblica: Lv 17:11.
-
“Quando Paulo diz que Deus apresentou Cristo como propiciação ou expiação, quis dizer que, através do sacrifício
substitutivo de Cristo na cruz do Calvário, a ira de Deus contra nossos pecados
estava sendo retida e nossa culpa estava sendo removida.” (HOEKEMA, pág. 164)
-
Paulo nos ensina sobre a justificação se dá pelo derramamento de sangue. Isto
se refere ao sacrifício voluntário e penoso do Messias, de sua vida, no lugar
daqueles a quem ele veio salvar.
-
O pecado traz a ira de Deus sobre o pecador. A ira de Deus precisa ser aplacada
para que haja justificação e salvação.
-
Quando Cristo se ofereceu como expiação, a ira de Deus foi aplacada
definitivamente, foi removida de uma vez por todas. (Cf. BRUCE, pág. 87).
-
Cristo deu (voluntariamente):
·
seu
sangue;
·
sua
vida;
·
a
si mesmo (1Tm 2:6);
·
por
suas ovelhas;
·
levando
a ira de Deus no lugar delas;
·
trazendo
a reconciliação de Deus com estas ovelhas.
-
Cristo sacrificou-se por nós, sacrifício que remove a ira, que traz a vida!
-
Há uma ligação eterna e espiritual entre Cristo e o seu povo remido. Cristo em
nós e nós em Cristo. (Cf. RIDDERBOS, pág. 189-191)
-
“A justificação dos ímpios é uma justificação ‘em Cristo’, ou seja, não apenas
com base em sua morte expiatória e ressurreição, mas também em virtude da
inclusão corporativa nele daqueles que são seus.” (RIDDERBOS, pág. 195)
-
“Deus não apenas trata Cristo, que é sem pecado, como se fosse pecador, mas
também o faz (ao entrega-lo à morte de cruz) pecado no sentido legal da
palavra. É nesse sentido que aqueles que estão em Cristo pela fé tornam-se
justos, que são feitos ‘justiça de Deus’, isto é, podem identificar-se com
aquilo que é absolvido no julgamento de Deus. É essa ligação entre a morte de
Cristo e a justificação, julgamento absolvidor de Deus sobre aqueles que já
pertencem a Cristo que Paulo expressa em 1Coríntios 1:30. Deus assentou-se em
julgamento, julgou o pecado e, desse modo, levou seu julgamento escatológico a
ser revelado no tempo presente. Contudo, para aqueles que estão em Cristo
Jesus, ele tornou-se, portanto, justiça; e o conteúdo do evangelho da morte e
ressurreição de Cristo pode ser definido como a revelação da justiça de Deus
para todo o que crê”. (RIDDERBOS, pág. 189)
g)
“mediante a fé”:
-
Por meio da fé.
-
“Isso porque em todos os pronunciamentos nos quais se fala da fé ligada à
justiça, justificação, etc., ela significa o meio, instrumento, fundamento,
caminho, canal pelo qual, ao longo do qual ou no qual o homem participa da
justiça de Deus. (...) A fé não justifica por causa daquilo que é em si, mas
sim, por causa daquilo para que está voltada, em que se baseia. (...) O homem
não é justificado com base naquilo que ele próprio é ou naquilo que realiza,
mas justamente com base no que não possui e que ele próprio não tem à sua disposição,
mas que deve receber, obter, pela fé.” (RIDDERBOS, pág. 193)
-
“O sacrifício propiciatório de Cristo não produz efeito automaticamente. Se uma
pessoa quiser obter essa grande bênção – o afastamento da ira de Deus, o
perdão, a aceitação por parte de Deus –, ela tem de exercer genuína fé em
Cristo, em e por meio de quem o Deus Triúno se revela.” (HENDRIKSEN, pág. 177)
-
Para que uma pessoa seja salva, ela necessita da fé (salvadora), fé dada por
Deus.
-
Base bíblica: Ef 2:8; Rm 1:8,16,17; 3:22,26,28,30; 4:3; Hb 11:6.
-
A justificação, em nenhum sentido, é obra do homem; ou é adquirida por meio de
obras que visam obter salvação própria diante de Deus.
-
A justificação é:
·
dom
de Deus – Rm 5:15-18;
·
produto
da graça divina – Rm 3:24; 4:16; 5:15;
·
gratuita
– Rm 5:16;
·
sem
as obras humanas – Rm 3:20;
·
o
oposto a condenação – Rm 8:1,33,34;
·
aquilo
que priva o homem de toda razão para vanglória – Rm 3:27;
·
apropriada
pela fé, mesmo essa fé sendo dom de Deus – Ef 2:8;
-
Fé pode ser tomada como “graça de Deus”, a verdadeira base para a justificação
em contraste com as obras. (RIDDERBOS, pág. 194)
-
A fé “é imputada para justiça, a saber, como meio, tendo por base a obediência
e o ato justo de Um, de se chegar à justificação para a vida e à paz com Deus
por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” (RIDDERBOS, pág. 198)
-
Base bíblica: Rm 5:1,18-19.
Versos 25b-26: “para
manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os
pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça
no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé
em Jesus.”
-
Paulo pretende ensinar que Deus não fora injusto quando, em sua tolerância, ele
tratou com indulgência (passou por alto, ignorou), temporariamente, os pecados
cometidos por seu povo nos dias antigos, ou seja, durante a antiga dispensação
(antes da vinda de Cristo).
-
Assim, quando o Senhor Jesus sofreu e morreu, ele expiou graciosamente o pecado
de todos os que o aceitaram e iriam aceita-lo por meio da fé salvadora. Cristo
morreu e expiou os pecados de todas as pessoas que creram nele antes e depois
da sua 1ª vinda. A extensão da salvação de Cristo na cruz se estende tanto aos
irmãos do AT como no NT.
-
Deus foi, é e será para sempre poderosamente e amorosamente justo.
-
A justificação é aplicada somente e unicamente àqueles que exercem a fé
verdadeira em Cristo Jesus.
-
Em Jesus – Fé no Jesus da História, somente nele!
-
“Deus é o justo, não propriamente um entre muitos, mas o único que possui
inerentemente toda a plenitude da justiça. (...) [Deus é o justificador]
refere-se à comunicação da justiça, pois Deus de forma alguma oculta suas
riquezas em seu Ser, senão que as derrama sobre todo gênero humano, A justiça
divina, pois, resplandece em nós na medida em que Deus nos justifica por meio
da fé em Cristo, pois este haveria sido dado em vão, para nossa justiça, se não
o usufruíssemos, por meio da fé. Segue-se disso que todos os homens,
inerentemente, são injustos e estão perdidos, até que o remédio celestial lhes
seja oferecido.” (CALVINO, pág. 140)
Verso 27: “Onde,
pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo
contrário, pela lei da fé.”
-
Paulo combate o orgulho, a prepotência e a vanglória advindos pela falsa
compreensão da justificação.
-
Paulo declara que a vanglória está de todo excluída, isto é, foi banida de uma
vez por todas.
-
A glória de nossa justificação está em Cristo e em Deus, apenas!
-
“É a doutrina da justificação, daí a salvação, pela fé, que implica que não há
lugar algum para a ostentação. Porque a fé é um dom de Deus, como também é a
salvação considerada em sua inteireza. Nem mesmo a ínfima parte dela é produto
do engenho humano. Ver Efésios 2:8,9. Essa verdade, quando aplicada ao coração
pelo Espírito Santo, convence uma pessoa que, seja qual for o bem que ela
possui, ele foi recebido (1Co 4:7) e que aquele que se gloria, deve gloriar-se
no Senhor (1Co 1:31).” (HENDRIKSEN, pág. 180)
-
O direito do homem pecador se vangloriar foi totalmente excluído, assim expresso
pela Palavra de Deus.
Verso 28: “Concluímos,
pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.”
-
É por causa da fé que toda vanglória foi excluída. A fé retira nossos olhos de
nós mesmos e os põe em Deus, e espera a salvação exclusivamente de Deus.
-
Este verso é o resumo de toda a teologia paulina sobre o assunto.
-
“A justificação é pela fé em Cristo e não por obras. (...) somos justificados,
não na base de qualquer obra que operemos, mas unicamente na base da obra de
Cristo em nosso favor. A justiça de Deus obtida através da fé é um tesouro de
incomparável valor que em face dele nós também contaríamos qualquer outro ganho
como perda.”
-
verso 29: “É, porventura, Deus somente
dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios,”
-
-
verso 30: “visto que Deus é um só, o
qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso.”
-
-
verso 31: “Anulamos, pois, a lei pela
fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.”
-
4) O ENSINO DE TIAGO SOBRE O LUGAR DAS “OBRAS” NA VIDA
CRISTÃ: SALVOS PELAS OBRAS
-
(Cf. LOPES, págs. 15-16, 79-94; HOEKEMA, págs. 167-169).
O
tema da Carta de Tiago: “A natureza da religião que salva.”
-
Para Tiago, o Cristianismo autêntico é aquele se mostra na prática:
2:1-13 = pelo exercício da
misericórdia para com todos, especialmente para com os pobres;
2:14-26
= A fé sem obras é vã, morta e inútil.
-
Fé em Tiago = profissão de fé em Cristo Jesus, aceitação plena das doutrinas do
Cristianismo;
-
Obras em Tiago =
* Atos de misericórdia para com os
necessitados;
* Atos de obediência à vontade de Deus,
conforme exemplificados na vida de Abraão e Raabe (2:21,25).
-
Salvação em Tiago = “a salvação da alma da morte eterna (5:20)”, perecer eternamente
(4:21).
Estudo dos textos chaves:
Verso 2:18: “Mas
alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras,
e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.”
-
Tiago desafia o hipócrita a mostrar a fé que diz ter.
-
Somente pelas obras a verdadeira fé se mostra.
-
Fé = Para Tiago significa profissão de fé a Cristo. O ato de declarar-se
cristão, crente em Jesus.
-
Tiago confronta aquele que se gloria de ter fé, mas não tem obras.
-
Prova de fé real = profissão de fé que se mostra por obras.
-
A verdadeira fé só pode manifestar-se, ser conhecida e comprovada por meio de
ações práticas de amor (3:13).
-
Obras = como prova de fé; fé que dá fruto (Mt 7:16-17).
Verso 2:21: “Não
foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o
altar o próprio filho, Isaque?”
-
As obras que demonstram a fé de Abraão.
-
Para Tiago, fé e obras andam juntas, inseparáveis e auto dependentes.
-
A justificação de Abraão se consumou pelo ato de obediência quando
ofereceu Isaque ao Senhor Deus (2:22); se cumpriu, se confirmou, realmente ele
creu em Deus, seu Senhor (2:23).
-
Tiago não ensina que a justificação é pelas obras. Ele está apenas confrontando
a fé vazia com a fé salvadora, que , se manifesta, é demonstrada pela prática
das boas obras.
Verso 2:22: “Vês
como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que
a fé se consumou,”
a)
A
fé de Abraão operava junto com as suas obras (2:18);
b)
Pelas
obras a fé se consumou, alcançou o seu alvo, se completou;
-
O ato de obediência de Abraão mostrou ao mundo que ele realmente creu em Deus e
confiou em suas promessas. Sua obediência justificou-o diante dos homens;
-
Fé e obras andam juntas e cooperam mutuamente:
·
Fé
produz obras = raiz;
·
Obras
aperfeiçoam a fé = frutos.
Verso 2:23: “e se
cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi
imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus.”
c)
Quando
Abraão ofereceu Isaque, cumpriu-se Gn 15:6.
-
Cumpriu = “foi comprovada”, “demonstrada”;
-
Sua fé foi manifestada publicamente.
Verso 2:24: “Verificais
que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.”
-
Aqui está o ensino central de Tiago sobre a justificação pelas obras.
-
Tiago combate a profissão de fé desacompanhada de obras para validá-la,
confirma-la.
-
Justificada = “feito justo”, “demonstrado justo”.
-
Prova de fé = não é o ato inicial da fé, pelo qual o homem é justificado.
-
“e não por fé somente” = Tiago se refere
a uma fé HIPÓCRITA, sem frutos, sem obras que a comprovem como a verdadeira,
salvadora.
Verso 2:25: “De
igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando
acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho?”
-
Raabe é outro exemplo que Tiago usa e um caso semelhante ao de Abraão.
-
Tanto Abraão quanto Raabe foram justificados pela fé, e demonstraram esta fé
com suas obras.
-
Raabe demonstrou sua fé ao arriscar a sua própria vida ao acolher os emissários
de Josué, os espias. Ela os escondeu e
os salvou da morte (Js 2:1-24; 6:22-25).
-
Fé verdadeira = Para Tiago significa atos de obediência e temor a Deus.
-
2:26: A fé se mostra pelas obras e as obras completam a fé (2:18,22).
-
Quando a fé e obras estão juntas, temos vida.
5) MAS,
AFINAL, QUAL O LUGAR DAS “OBRAS” NA VIDA CRISTÃ? SOMOS SALVOS PELA FÉ OU PELAS
OBRAS? BUSCANDO A HARMONIA ENTRE A
TEOLOGIA DE PAULO E TIAGO
- (Cf. LOPES, págs. 15-16, 79-94; HOEKEMA,
págs. 167-169).
- Nunca houve qualquer discordância
entre os ensinos de Tiago e as doutrinas de Paulo.
- A fé que Tiago condena não é a mesma
que Paulo recomenda.
- As obras que Tiago recomenda não são
as mesmas que Paulo condena.
- Paulo e Tiago condenam uma fé
hipócrita, “da boca para fora”; Eles declaram que a fé salvadora se expressa
por meio de obra, de atos de obediência, na prática.
- Para Paulo e Tiago o homem é
justificado diante de Deus pela fé somente, mas também, justificado diante dos
homens pelas obras que pratica decorrente da sua fé.
- Fé e obras = Árvore = Raiz e frutos.
- Fé sem obras é morta; e obras sem fé
são inúteis.
- Portanto, Tiago e Paulo estão de
acordo.
- Há plena unidade entre Paulo e
Tiago. Os dois concordam:
·
Só a fé viva justifica;
·
É a fé sozinha que nos justifica; mas,
a fé que não está sozinha;
·
A fé viva exige obras de obediência.
- Paulo ensina que fomos salvos para
as boas obras: Gl 5:6-13; 1Ts 1:3; 1Tm 1:5; Tt 1:6; 3:8; Ef 2:8-10; 1Co 15:2.
- Tiago ensina a importância da fé
salvadora: Tg 1:3; 5:15.
- A Bíblia toda ensina a necessidade
da fé salvadora para a justificação (salvação): Mt 21:21; 23:23; Mc 11:22; Lc
5:20; At 16:5,31; 20:21; Rm 10:13,17; Ap 3:20.
- A Bíblia toda também ensina a
necessidade das boas obras, dos atos de obediência, da santificação na vida
cristã, depois da conversão: Gn 17:1; Mq 6:8; Is 1:16-17; Sl 15; Mt 3:8; 7:16-20;
Lc 3:8; Jo 15:16; Tg 3:17.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
1)
A Fé é necessária para a justificação
(salvação):
-
Fé salvadora;
-
Fé apenas em Cristo;
-
Fé somente;
-
Necessidade urgente de evangelização.
2)
As Obras são necessárias na vida
cristã:
-
Para provar a fé;
-
Para demonstrar obediência e temor a Deus;
-
Santidade / santificação;
-
Leva ao amor e humildade;
-
Encaminha a uma melhor adoração a Deus.
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Concluído em 27/06/14,
em Miranda-MS.
Rev. Marlon Antonio
de Oliveira
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