"Justo és, Senhor": A justiça santa de Deus e o arrependimento
“A teologia mata o nosso amor, mata a nossa vontade de
buscar a Deus!” Esta frase foi me proferida por alguém um tempo atrás. Na
verdade, esta pessoa não entendeu nada do que é teologia, e a sua necessária
conexão com a piedade. Teologia e vida, teologia e piedade, não são
auto-excludentes. O propósito desta série é demonstrar isso, aplicando alguns
pontos fundamentais da teologia cristã (reformada) à vida diária do crente. As
verdades referentes a Deus e à sua vontade devem ser o motor que move todo
nosso coração e mente a Ele mesmo, ao próximo e a uma vida plena de verdade e
amor.
Hoje, trataremos preliminarmente de um dos pontos mais complicados da teologia. Falaremos da justiça santa de Deus. Afirma-se que Deus
é amor. Isso é bíblico. O problema começa a existir quando se prega que o amor
de Deus exclui ou anula toda a sua justiça. Isso já não é bíblico. Os atributos
de Deus são perfeitos, todos eles revelam a completude do Ser divino. Deus é o
que é! Ele se revela plenamente amoroso e plenamente santo e justo. Vamos
pensar nisso um pouco.
a)
Primeiramente, tragamos à mente a verdade bíblica que Deus é justo! As Escrituras afirmam: “Justo és, Senhor, e retas são as tuas ordenanças. Ordenaste os teus
testemunhos com justiça; dignos são de inteira confiança!” (Sl 119:137 NVI). E, “Então ouvi o anjo que tem autoridade sobre
as águas dizer: ‘Tu és justo, tu, o Santo, que és e que eras, porque julgaste
estas coisas.’” (Ap 16:5 NVI).
(Veja também: Ed 9:15; Ne 9:8; 145:17;
Jr 12:1; Lm 1:18; Dn 9:14; Jo 17:25; 1Jo 2:29; 3:7).
A justiça do Deus Trino está conectada à sua
santidade. Deus é justo porque é santo! A justiça é a manifestação da sua
santidade no trato com os obedientes e desobedientes. Isto é, a santidade de
Deus requer a plena obediência à sua vontade. Quando se obedece ou não, sua
vontade santa a justiça é desempenhada. A vontade de Deus é santa, sua lei é
perfeita: Dt 4:8; Sl 19:7. Há duas
questões fundamentais que precisam ser tratadas aqui. A justiça retributiva de
Deus é aplicada necessariamente por causa do pecado. Aos eleitos de Deus esta
justiça – a ira divina e sua justa condenação – é imputada em Cristo Jesus, o
Messias, o Mediador da nova aliança (aliança graciosa). Deixe-me explicar
melhor.
b)
Todo pecado deve ser punido porque todo
pecado é uma ofensa à santidade de Deus. Veja: “Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele
que pecar é que morrerá. (...) Aquele que pecar é que morrerá. O filho não
levará a culpa do pai, nem o pai levará a culpa do filho. A justiça do justo
lhe será creditada, e a impiedade do ímpio lhe será cobrada.” (Ez 18:4,20 NVI). E, “Pois o salário do pecado é a morte, mas o
dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rm 6:23 NVI). A Escritura atesta
claramente que o pecado é uma ofensa a Deus: “Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que
justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me.” (Sl 51:4 NVI). Assim, todo pecado exige a justa reprovação e
necessária condenação divinas. A justiça de Deus é modulada pela sua santidade!
Deus é o juiz: “Os justos se alegrarão
quando forem vingados, quando banharem seus pés no sangue dos ímpios. Então os
homens comentarão: ‘De fato os justos têm a sua recompensa; com certeza há um
Deus que faz justiça na terra’.” (Sl
58:10,11).
c)
Aos eleitos de Deus, a ira e condenação
pelo pecado são imputados em Cristo. O Filho unigênito de Deus Pai é quem
recebe a ira pelos nossos pecados (Hb
7:22; Cl 2:14; Is 56:5) e nos salva desta ira: “Como agora fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda seremos
salvos da ira de Deus por meio dele! Se quando éramos inimigos de Deus fomos
reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo
sido reconciliados, seremos salvos por sua vida! Não apenas isso, mas também
nos gloriamos em Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, mediante quem
recebemos agora a reconciliação.” (Rm
5:9-11 NVI). (Veja também: 1Ts 1:10;
Sl 103:10). Cristo é a razão pela qual os eleitos não experimentam mais a
ira de Deus e nem experimentarão também o terror do inferno! (Veja: 1Tm 1:14-15; 2:5-6; Hb 12:2).
d)
Porém, os ímpios serão condenados com
justiça pelos seus pecados. Repare, Deus se obriga a punir os pecados dos
desobedientes por causa da sua perfeita santidade. Esta condenação é justa, é a
manifestação da justiça divina! A ira condenatória de Deus é derramada sobre aqueles
que se mantiveram rebeldes diante do Senhor. Veja: “Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os
entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.
Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação.
Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São
bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e
presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são
insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis. Embora conheçam o justo
decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte,
não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as
praticam.” (Rm 1:28-32 NVI). E: “Então os reis da terra, os príncipes, os
generais, os ricos, os poderosos — todos os homens, quer escravos, quer livres,
esconderam-se em cavernas e entre as rochas das montanhas. Eles gritavam às
montanhas e às rochas: ‘Caiam sobre nós e escondam-nos da face daquele que está
assentado no trono e da ira do Cordeiro! Pois chegou o grande dia da ira deles;
e quem poderá suportar?’” (Ap
6:15-17 NVI). Temos nestes versos a revelação do Dia do Senhor, Dia
Terrível, quando a condenação será aplicada com justiça sobre os ímpios. (Veja:
Rm 12:19). O Filho de Deus é o santo
juiz que aplicará a ira de Deus e a condenação com equidade sobre os filhos da
desobediência: At 17:31; Jo
5:22-23,26-27; Mt 28:18; Ap 6:10,16-17.
Esta doutrina da justiça santa de Deus precisa ser estudada com muito cuidado e submissão à revelação do Senhor. Nossa fé deve ser moldada pela verdade das Escrituras, e não por "achismos" ou ideologia "humanistas". Não é o presente século que deve formar nossa mentalidade. O senso de justiça de Deus não deve ser medido pelo nosso senso de justiça. Somos criaturas imperfeitas, Ele é Deus! Campos (1999, p. 348-350) indica algumas implicações desta doutrina bíblica:
“1. Todos os
homens precisam se arrepender de seus pecados e confiar em Cristo, a fim de que
escapem da manifestação da ira divina.
2. A doutrina
da ira de Deus deveria motivar os cristãos a testificar de Jesus Cristo e
chamar os pecadores ao arrependimento.
3. A doutrina
da ira divina é um incentivo para você viver uma vida de retidão.
4. A doutrina
da ira divina deveria fazer você viver desconfortavelmente com o pecado.
5. Leve a sério a doutrina da ira divina.”
Reiteramos:
1) Devemos adorar a
Deus primeiramente pelo o que Ele é! Que os nossos
corações se enchem de louvor ao Senhor porque Ele é o Deus de toda justiça! Ele
é o santo juiz, perfeito e maravilhoso. Assim a Escritura o revela, e assim
devemos crer. Este atributo divino nos conduz à reflexão e reconhecimento da
grandeza do Ser de Deus. Ele é um Deus tremendo! Temor e reverência precisam
estar presentes no coração de todos que o conhecem verdadeiramente. (Veja: Ap 15:3-4; Hb 12:28-29).
2) Com relação aos
eleitos, sua ira condenatória já foi colocada sob Cristo.
Esta verdade escriturística deve levar a Igreja do Senhor à humildade,
quebrantamento e santidade (retidão): 2Co
5:3,9; 1Ts 1:7; Hb 12:14; 1Pe 1:14-16. Devemos nos afastar cada vez mais do
pecado, de tudo aquilo que ofende o Senhor Deus. Vivamos para agradecer ao Pai
do Céu pela salvação maravilhosa em Jesus, nosso Salvador. Confessemos nossos
pecados com confiança no perdão já obtido na cruz e na santificação operada
mediante os meios de graça em nosso coração pelo Espírito Santo: 1Jo 1:7-2:2. A salvação não é mérito da
Igreja, portanto, a humildade é sempre indicada: Lc 17:10; 1Co 4:7; Tg 1:17; 1Cr 29:14; Tt 3:4-7.
3) A mensagem de
evangelização e alerta a todo mundo é urgente.
O Dia do Senhor, quando Cristo voltar, é iminente. Veja: “‘O grande dia do Senhor está próximo; está próximo e logo vem. Ouçam!
O dia do Senhor será amargo; até os guerreiros gritarão. Aquele dia será um dia
de ira, dia de aflição e angústia, dia de sofrimento e ruína, dia de trevas e
escuridão, dia de nuvens e negridão, dia de toques de trombeta e gritos de
guerra contra as cidades fortificadas e contra as torres elevadas. Trarei
aflição aos homens; andarão como se fossem cegos, porque pecaram contra o
Senhor. O sangue deles será derramado como poeira, e suas entranhas como lixo.
Nem a sua prata nem o seu ouro poderão livrá-los no dia da ira do Senhor. No
fogo do seu zelo o mundo inteiro será consumido, pois ele dará fim repentino a
todos os que vivem na terra.’”. (Sf
1:14-18 NVI). E: “Busquem o Senhor,
todos vocês humildes do país, vocês que fazem o que ele ordena. Busquem a
justiça, busquem a humildade; talvez vocês tenham abrigo no dia da ira do
Senhor.” (Sf 2:3 NVI).
O arrependimento é um dos conteúdos centrais da
mensagem evangelística: “No passado Deus
não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar,
se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça,
por meio do homem que designou. E deu provas disso a todos, ressuscitando-o
dentre os mortos.” (At 17:30,31
NVI). (Veja também: At 2:38-39; 3:19-20).
Os eleitos já foram salvos em Cristo desta ira divina.
A ira que seria dos eleitos já foi aplicada no Cordeiro de Deus, na cruz do
Calvário. Mas, aos que se mantiverem rebeldes e desobedientes, esta ira será
derramada com equidade. Deus sempre será santo, justo e bom! Que esta doutrina
bíblica nos leve a uma vida de fé mais madura diante do Senhor. Que os nossos
corações sejam quebrantados diante dele. Que toda a nossa gratidão ao nosso
Salvador se manifeste numa vida de mais santidade. Que nossos lábios se abram
com amor e senso de urgência para avisar a todos da ira vindoura e amor de Deus
em Cristo Jesus.
Um hino intitulado “Perdão”
traz uma mensagem lindíssima de um crente que compreendeu a gravidade do seu
pecado, a ira justa de Deus, o amor de Deus em Cristo Jesus, a necessidade de
arrependimento, e uma vida de esperança e gratidão ao nosso Salvador. Que a
mensagem deste hino nos conduza nestes trilhos.
Perdão
Acharei mercê em Deus?
Pode ainda perdoar?
Esquecer pecados meus?
Minha vida transformar?
Eu que sempre resisti,
Sua ira suscitei;
Seus apelos não ouvi,
Transgredi a sua lei!
Arrependo-me, Senhor,
Tenho ao mal grande aversão!
Sinto n'alma intenso horror;
Posso ter o teu perdão?
Mansamente, diz Jesus:
“Quero a paz te conceder!
A salvar-te fui à cruz,
Salvo estás, se podes crer!”
Sim, eu creio e salvo estou!
Reina gozo lá no céu,
Pois a nova já chegou,
De mais um que nele creu.
(Hino 216, Hinário Novo Cântico. Autor: Charles Wesley / Trad.: Justus Henry Nelson, 1894)
Rev. Marlon de Oliveira
Excelente texto Pastor exatamente muito detalhado em cada palavra que possamos buscar ao Senhor todos os dias enquanto se pode achar com arrependimento “Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me.” (Sl 51:4 ) Ele é justo e o que fizer está bem feito e com retidão e justiça
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